Um Step 2 CK de 245 não compra o que um green card comprou no Match 2026. O candidato non-US IMG que precisou de patrocínio de visto deu Match a 54,4%. Quem não precisava de patrocínio, o residente permanente, deu a 67,9%. São 13,5 pontos de diferença que não passaram pela sua nota, pela sua carta nem pela sua entrevista. Passaram pelo seu visto.

A tese deste post é direta e desconfortável. No Match de hoje, o visto é a variável que mais separa quem entra de quem fica de fora entre os non-US IMG. Esse fosso virou o maior dos últimos cinco anos. Quem trata o visto como detalhe burocrático para resolver depois da nota ataca o problema na ordem errada.

O que esses 13,5 pontos realmente dizem?

Os 54,4% são a taxa de Match PGY-1 mais baixa em cinco anos para o candidato que depende de patrocínio. No mesmo ciclo, a taxa de quem não depende bateu o ponto mais alto do período. As duas curvas andaram em direções opostas no mesmo ano. O Match non-US IMG, que muita gente lê como um número só, está se partindo em dois ao longo da linha do visto.

Vale fixar a referência. Em 2023, o candidato visto-dependente chegou a 59,1%, o pico recente. De lá para cá a tendência é de queda, e 2026 marcou o fundo. A taxa geral do non-US IMG ficou em 56,4%, também o menor nível em cinco anos. O número agregado esconde a parte que interessa a você: o lado visto-dependente puxa a média para baixo.

A leitura prática é esta. Se você precisa de patrocínio, a sua taxa de referência não é a manchete de 56,4%. É 54,4%, e ela vem caindo. A taxa de Match para IMG que precisa de visto é o seu número real. Planejar a lista com o agregado é planejar com otimismo emprestado de quem já tem green card.

Por que a nota não fecha esse fosso?

Aqui mora o erro de raciocínio mais caro. A reação intuitiva do médico brasileiro é compensar o visto com nota: "se eu tirar 250, eu anulo a desvantagem". Não anula. O fosso de 13,5 pontos é estrutural, e nasce antes da sua nota entrar na conta do programa.

O candidato com green card e o visto-dependente competem com o mesmo currículo, mas não com o mesmo custo para o programa. Patrocinar um J-1 ou um H-1B significa papelada, prazo, custo e risco institucional. Diante de dois candidatos parecidos, o programa que não quer lidar com isso já filtrou um dos dois antes de olhar o Step. A nota resolve a comparação de mérito. O visto resolve se você entra na comparação.

Por isso somar pontos de Step não devolve os 13,5. Você estaria otimizando a variável que já estava boa e deixando intacta a que estava cortando.

Por que ter mais candidatos piora justo o lado visto-dependente?

O fosso piora quando você olha quem entrou na fila. O número de candidatos nonUS IMG ativos chegou a 11.944 em 2026, um aumento de 479 sobre 2025. Desde 2022, esse grupo cresceu 51,9%. É mais da metade de candidatos a mais em quatro anos, disputando vagas que não cresceram na mesma velocidade.

O efeito de segunda ordem é o que dói. Esse crescimento se concentra justamente no lado visto-dependente, o mesmo lado cuja taxa caiu para o mínimo. Mais gente competindo pela fatia mais difícil empurra a taxa para baixo de novo no próximo ciclo. Quem planeja para 2027 e 2028 precisa assumir que o vento ainda sopra contra, não que 2026 foi acidente isolado.

O corte do visto: a ordem que muda o resultado

Se o visto corta antes da nota, a sua preparação precisa cortar na mesma ordem. Chamo isso de corte do visto, e ele é uma sequência travada, não um menu de opções soltas. A primeira decisão amarra todas as outras: defina o caminho de visto antes de montar a lista, porque J-1 e H-1B abrem e fecham portas de programas diferentes.

Esse caminho é o que determina o filtro seguinte. Com o visto definido, você filtra programas pelo histórico real de patrocínio, não pelo rótulo genérico de "IMG friendly". Corte da lista quem não patrocina o seu tipo de visto. Essa lista filtrada, por sua vez, recalibra quantos programas aplicar, porque a sua taxa-base é 54,4%, e não a média agregada mais animadora.

E só então a especialidade entra na conta, com via de visto, lista e volume já definidos. Ela vem junto da competitividade, nunca depois dela, porque o campo que patrocina pouco te tira da disputa antes da nota. Inverter essa ordem é o erro mais caro do ciclo. A regra prática é a mesma do plantão: você estabiliza a via aérea antes de tratar a dor. O visto é a via aérea da sua candidatura. Tudo o mais espera.

O conselho concorrente, na versão mais forte

O conselho que circula em português é coerente e merece ser dito por inteiro. Ele diz: foque no que você controla. A política de imigração você não muda, mas a sua nota, a sua carta e a sua experiência clínica nos EUA você constrói. Logo, gaste a energia onde ela rende, no currículo, e deixe o visto como dado fixo do problema.

A parte certa desse conselho é o foco no controlável. O furo é tratar o visto como dado fixo. Ele não é. Você escolhe entre J-1 e H-1B, escolhe mirar especialidades e programas com histórico de patrocínio, e escolhe quantas portas abrir sabendo do desconto. O visto não é uma constante imposta. É uma variável que a maioria deixa no automático e depois paga 13,5 pontos por isso.

O caso em que o visto difícil compensa

Há um detalhe que inverte o jogo para parte dos brasileiros. O J-1 obriga dois anos no Brasil depois do treino. Parece só custo, mas para quem pretende voltar é encaixe perfeito: cumpre a regra sem precisar de waiver. Quem mira ficar nos EUA é que enfrenta o gargalo, e aí entra o Conrad 30. A escolha do visto não é só sobre o Match. É sobre os cinco anos seguintes a ele. Vale ler o que muda no J-1 com a proclamação de 2026 antes de cravar o caminho

O que fazer com isso amanhã

Comece pela conta honesta. Anote a sua taxa-base real, 54,4%, e monte o número de programas a partir dela, não da média agregada. Depois passe a sua lista pelo filtro de patrocínio e corte quem não patrocina o seu visto, por mais atraente que o programa pareça. Só então volte para o Step. A nota continua importando muito, mas rende mais quando você já tirou da lista os programas que iam te cortar pelo visto.

É exatamente nesse trabalho de ordenar as decisões que a gente concentra a mentoria. Dos mais de 75 médicos que passaram pela escola, 93% deram Match. Boa parte disso vem de resolver o visto e a lista antes de virar a preparação numa corrida cega por pontos. Para escolher entre os caminhos de visto e especialidade na ordem certa, vale o nosso material sobre como o IMG brasileiro escolhe especialidade. Ele cobre as cinco variáveis, do Step 2 CK ao visto.

Você já sabe qual é a sua taxa-base real e quantos programas ela exige?

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Fontes oficiais

  1. NRMP, Releases Results of the 2026 Main Residency Match (20/03/2026): taxa PGY-1 non-US IMG de 56,4%, 11.944 candidatos ativos, aumento de 479 sobre 2025.
  2. NRMP, New Reports: 2026 Main Residency Match Outcome and Demographic Reports (01/05/2026): visto-dependente 54,4% (mínima de 5 anos) vs 67,9% sem patrocínio (máxima de 5 anos); pico de 59,1% em 2023; crescimento de 51,9% no número de candidatos non-US IMG ativos entre 2022 e 2026.
  3. American Medical Association, Largest Match Day on record: the 2026 numbers (2026): contexto do maior Match já registrado e recortes por tipo de candidato.

Este conteúdo é educacional e não substitui orientação jurídica de imigração nem aconselhamento individual de carreira para o seu caso.