A manchete de dezembro assustou quem acompanha imigração médica: o sorteio puro do H-1B acabou, e agora salários mais altos recebem mais bilhetes. Para quem vai ganhar salário de residente, a leitura instintiva é de porta fechando nos Estados Unidos. Essa leitura erra o alvo que mais importa acertar. A loteria ponderada por salário, em vigor desde 27 de fevereiro de 2026, quase não alcança o caminho que o médico brasileiro percorre. O golpe verdadeiro veio antes e fez menos barulho por aqui. É a taxa de US$100 mil por petição nova de H-1B, cobrada inclusive de empregador isento de cota quando o beneficiário espera fora dos EUA.

A tese deste post é contestável de propósito: no ciclo 2026-27, a loteria ponderada merece um dar de ombros, e a taxa de US$100 mil merece o seu planejamento inteiro. O sorteio novo guarda portões que o médico bem orientado raramente atravessa. A taxa morde na entrada da residência, e a única isenção específica para médicos ainda é um projeto de lei no Congresso.

O que mudou na loteria do H-1B desde 27 de fevereiro de 2026?

O DHS publicou a regra final no Federal Register em 29 de dezembro de 2025, com vigência a partir de 27 de fevereiro de 2026. O registro de cada candidato agora carrega o nível salarial da vaga na tabela OEWS do Departamento do Trabalho, junto do código de ocupação e do local de trabalho. Uma vaga classificada como Level IV entra quatro vezes no sorteio, enquanto uma vaga Level I entra uma única vez. Os níveis intermediários recebem duas e três entradas.

O detalhe que as manchetes escondem é que o nível salarial é relativo à ocupação e à região, nunca um valor absoluto. Um attending recém-formado costuma receber oferta de entrada para a categoria, o que cai em Level I ou II da tabela de médicos daquela área. Salário alto em dólares não compra quatro bilhetes; posição alta dentro da própria ocupação compra.

A primeira rodada sob a regra nova já aconteceu e serve de calibração. O registro do FY2027 correu de 4 a 19 de março de 2026. Em 31 de março, o USCIS confirmou o fim da seleção inicial, com notificações enviadas e a cota de 85 mil vistos preenchida no registro. As petições dos selecionados entraram a partir de 1º de abril. Se as petições aprovadas não preencherem a cota, o USCIS historicamente abre uma segunda rodada entre julho e setembro, e é essa janela que corre agora.

Por que a residência do médico passa longe desse sorteio?

Aqui entra a régua que usamos com os nossos alunos: o teste dos três portões. O caminho do médico cruza o sistema de imigração em três pontos, e cada regra nova morde no máximo um deles. O portão um é a entrada na residência. O portão dois é o primeiro emprego depois do treino, quando o waiver do J-1 decide qual visto existe. O portão três reúne as trocas de emprego na vida de attending. Antes de reagir a qualquer manchete, pergunte em qual portão ela bate.

A loteria ponderada guarda um portão que o médico quase nunca atravessa. No portão um, a maior parte dos hospitais que patrocinam H-1B de residência é universidade ou entidade sem fins lucrativos afiliada, e esses empregadores são isentos de cota por lei. Eles nunca participaram de sorteio nenhum, ponderado ou não. No portão dois, o H-1B obtido com waiver Conrad 30 também é isento de cota, pela seção 214(l) da lei de imigração americana.

No portão três mora o detalhe que quase ninguém conta ao residente. O médico que cumpre os três anos do waiver já foi contado na cota no primeiro H-1B. Todas as trocas de emprego seguintes acontecem fora da loteria, mesmo para empregador comum com fins lucrativos. Quem sobra para o sorteio ponderado é o caso raro: o candidato de programa com fins lucrativos sem afiliação universitária, ou o attending que tenta pular a etapa do waiver.

A taxa de US$100 mil morde onde a loteria não morde

E é exatamente nesse ponto que a conversa vira. A proclamação presidencial de setembro de 2025 criou um pagamento de US$100 mil por petição nova de H-1B. A orientação do USCIS, atualizada em outubro de 2025, definiu o alcance: petições protocoladas desde 21 de setembro de 2025 para beneficiários fora dos EUA sem visto H-1B válido. A cobrança vale para empregador sujeito à cota e para empregador isento. Petição sem comprovante de pagamento, e sem exceção concedida pelo DHS, é negada.

Traduza isso para a realidade do Match. O brasileiro aprovado que espera o visto no Brasil é, por definição, um beneficiário fora dos EUA. O hospital-escola que sempre patrocinou H-1B de residência continua livre da loteria, mas não da taxa. Dificilmente um programa paga US$100 mil por um PGY-1 com salário de treinamento, e essa conta explica por que as principais entidades médicas correram ao Congresso pedir isenção. Para o ciclo 2026-27, o J-1 patrocinado pelo ECFMG virou a porta padrão de entrada.

A exceção de interesse nacional existe no papel, e só no papel para fins de planejamento. O próprio DHS a descreve como extraordinariamente rara e exige provar que nenhum trabalhador americano pode ocupar a vaga. Nenhuma estratégia de Match séria se apoia nessa via. Se o seu plano depende de uma exceção que o governo anuncia como quase impossível, o plano precisa de revisão.

O projeto que isenta médicos ainda é só um projeto

Em 17 de março de 2026, quatro deputados apresentaram o H.R. 7961, o H-1Bs for Physicians and the Healthcare Workforce Act. O texto isenta médicos e demais profissionais de saúde da taxa de US$100 mil e trava cobranças futuras nos patamares já previstos em lei. O projeto é bipartidário e chegou com endosso público da AMA, da AAMC e da American Hospital Association no dia do anúncio.

Projeto apresentado não altera petição nenhuma, por mais apoio que carregue. Entre a apresentação e a sanção existem comissões, calendário eleitoral e a chance real de o texto morrer sem voto. A regra prática é a mesma do plantão: trate o quadro provável, e não o desejado. Monte o ciclo assumindo taxa em vigor e isenção inexistente. Se a lei passar antes da temporada de entrevistas, recalibre, porque programas que hoje recusam patrocínio podem reabrir a opção.

O conselho de fugir do J-1 era bom e envelheceu mal

O conselho concorrente merece a versão mais forte dele. Durante anos, mentores experientes recomendaram preferir o H-1B na residência a quem tivesse Step 3 em mãos e programa disposto. O argumento tinha lastro real. O H-1B admite dupla intenção e abre caminho ao green card, dispensa a regra dos dois anos no país de origem e livra o médico do gargalo do waiver. Para quem mirava carreira longa nos EUA, era racional.

A taxa quebrou esse raciocínio exatamente no ponto de entrada. O H-1B de residência agora carrega um pedágio de US$100 mil que o programa pagaria por um beneficiário que espera no Brasil. O J-1 mantém o custo de sempre, a regra dos dois anos, que tem saída mapeada pelo Conrad 30. O resultado é irônico: o visto com fama de pior virou o único com custo previsível. Filtrar a lista por programas que patrocinam H-1B significa aplicar para um conjunto que encolheu e pode encolher mais.

O J-1 não ficou imune à turbulência de 2026. A Proclamação 10998 mexeu com a emissão de vistos e merece leitura separada, que fizemos em Travel Ban de 2026 e o médico brasileiro. Ainda assim, entre um risco operacional administrável e um pedágio de US$100 mil sem data para cair, a matemática da lista favorece o J-1. Essa é a comparação que os fóruns em inglês não fazem pelo brasileiro.

O efeito de segunda ordem: os 30 waivers por estado ficam mais disputados

Siga a cadeia dois passos à frente. Se a taxa encarece a entrada por H-1B e a loteria pune ofertas de início de carreira, mais médicos serão empurrados para o trilho do J-1 com waiver. O Conrad 30 distribui exatamente 30 recomendações por estado a cada ano fiscal, em troca de três anos de serviço em área carente. Estados atraentes já fechavam a fila cedo em anos normais. Com mais gente no mesmo funil, a janela tende a fechar semanas antes.

A consequência operacional é concreta: a busca pelo emprego com waiver deixou de ser tarefa de PGY-3 e virou tarefa de PGY-2. Quem espera o último ano da residência para procurar vaga em área carente vai disputar um slot estadual contra uma fila maior. O passo a passo do programa está em Conrad 30: como o médico brasileiro consegue um dos 30 vistos por estado. O waiver é o mesmo; o relógio de 2026 é que apertou.

O que fazer com a sua lista até o ERAS abrir

Passe o seu caso pelo teste dos três portões antes de mexer na lista. Quem aplica no ciclo 2026-27 monta a estratégia assumindo o J-1 como via de entrada. Programa que anuncia patrocínio H-1B virou exceção a confirmar por escrito, com pergunta explícita sobre quem paga a taxa de US$100 mil. Acompanhe o H.R. 7961 pelo número do projeto, direto no site do Congresso. Se o seu horizonte inclui ficar nos EUA, estude o mapa dos waivers durante a residência, e não depois dela.

Essa leitura de visto antes da lista é a espinha do método que aplicamos na escola. Entre os mais de 75 médicos que passaram pelo nosso processo, 93% deram Match. Parte desse número vem de decisões tomadas no portão certo e na ordem certa, muito antes de o ERAS abrir. A regra nova de 2026 não mudou o método; ela só deixou mais caro errar a ordem.

Fontes oficiais

  1. Federal Register, Weighted Selection Process for Registrants and Petitioners Seeking To File Cap-Subject H-1B Petitions, 29/12/2025: https://www.federalregister.gov/documents/2025/12/29/2025-23853/weighted-selectionprocess-for-registrants-and-petitioners-seeking-to-file-cap-subject-h-1b
  2. USCIS, DHS Changes Process for Awarding H-1B Work Visas, dezembro de 2025: https://www.uscis.gov/newsroom/news-releases/dhs-changes-process-for-awarding-h-1bwork-visas-to-better-protect-american-workers
  3. USCIS, FY 2027 H-1B Cap Initial Registration Period Opens on March 4, fevereiro de 2026: https://www.uscis.gov/newsroom/alerts/fy-2027-h-1b-cap-initial-registration-period-openson-march-4
  4. USCIS, FY 2027 H-1B Initial Registration Selection Process Completed, 31/03/2026: https://www.uscis.gov/newsroom/alerts/fy-2027-h-1b-initial-registration-selection-processcompleted
  5. USCIS, H-1B FAQ (pagamento de US$100 mil da proclamação de 21/09/2025), atualizado em outubro de 2025: https://www.uscis.gov/newsroom/alerts/h-1b-faq
  6. USCIS, H-1B Cap Season (cota de 85 mil e isenções de cota por tipo de empregador): https://www.uscis.gov/working-in-the-united-states/temporary-workers/h-1b-specialtyoccupations/h-1b-cap-season
  7. Congress.gov, H.R. 7961, H-1Bs for Physicians and the Healthcare Workforce Act, 17/03/2026: https://www.congress.gov/bill/119th-congress/house-bill/7961/text
  8. AMA, AMA applauds bill to exempt physicians from $100,000 H-1B fee, 17/03/2026: https://www.ama-assn.org/press-center/ama-press-releases/ama-applauds-bill-exemptphysicians-100000-h-1b-fee
  9. USCIS, Conrad 30 Waiver Program (30 recomendações por estado, três anos de serviço): https://www.uscis.gov/working-in-the-united-states/students-and-exchange-visitors/conrad30-waiver-program

Este artigo tem caráter educacional e não substitui aconselhamento jurídico de imigração individualizado.