Pela primeira vez desde a criação do programa, o sorteio do H-1B deixou de ser cego. No ciclo FY2027, a seleção passou a ordenar os registros pelo salário do cargo. O DHS projeta 15,29% de chance para uma vaga de Nível I e 61,16% para uma de Nível IV. É quatro vezes mais, e nada disso é sorte. Uma diferença muda a leitura: o sorteio ponderado já rodou, mas essas taxas por nível são estimativa do próprio DHS, à espera do número apurado.
A leitura que corre nos grupos de brasileiro é que a regra fechou a porta. Para o médico, ela faz quase o contrário. O attending board-certified quase sempre cai em Nível III ou IV, a faixa que a nova regra premia. Quem apanha é o cargo de entrada barata, o analista júnior no piso. A tese é simples: o visto do médico se decide no degrau da carreira, e o salário virou a variável que você controla.
O status migratório já cobra caro antes mesmo do H-1B. No Match de 2026, o IMG que precisou de patrocínio deu Match a 54,4%. Quem não precisou ficou em 67,9%. São treze pontos que o visto subtrai da conta antes de qualquer questão de nota. Se o status move o Match desse tanto, tratá-lo como detalhe de fim de ciclo sai caro.
Direto ao ponto: a regra ponderada do H-1B projeta 15,29% ao Nível I e 61,16% ao Nível IV no FY2027. O attending brasileiro cai na faixa alta, então o medo está no lugar errado. A residência, quase sempre em hospital cap-exempt, nem entra na loteria. O visto se decide na escolha de especialidade e de empregador, muito antes da nota do Step.
O que a regra ponderada de fato mudou
Até o ciclo passado, todo registro tinha peso igual no sorteio. A regra, publicada em 29 de dezembro de 2025 e com vigência a partir de 27 de fevereiro de 2026, inverteu isso. Agora o USCIS ordena a seleção pelo nível salarial do Department of Labor, do Nível IV para o Nível I. Quanto mais alto o salário ofertado, mais perto do topo da fila.
O efeito no volume foi imediato. Os registros caíram para 211.600 no FY2027, uma queda de 38,5% sobre os 343.981 do ciclo anterior. O USCIS concluiu o sorteio e anunciou a seleção em 31 de março de 2026, com as notificações a partir de 27 de março. As probabilidades por nível que circulam, de 15,29% a 61,16%, saem da análise de impacto do próprio DHS e valem como estimativa, à espera do número apurado.
O attending brasileiro cai na faixa premiada
O nível salarial não é arbitrário. Ele compara o salário do cargo com o prevailing wage da ocupação naquela região. Um attending recém board-certified ganha bem acima do piso da especialidade. Isso o coloca em Nível III ou IV na maioria dos casos, a faixa estimada de 45,87% a 61,16%.
O mesmo salário que afunda um cargo de entrada no Nível I é o que salva o médico no Nível IV. A regra pesa contra quem ganha o piso de uma ocupação abundante, não contra o attending. O brasileiro que teme o H-1B está mirando o problema do vizinho.
O degrau que a loteria nem alcança: a residência
Tem um detalhe que quase ninguém explica em português. A maioria dos programas de residência é cap-exempt. Hospitais de ensino afiliados a universidade contratam H-1B fora da loteria, sem teto e sem sorteio. Se o seu programa é capexempt, a conta de 15% ou 61% simplesmente não alcança você na entrada.
A ressalva importa. A isenção pertence ao empregador e ao cargo. Ela acompanha o emprego, e desaparece quando você troca de vaga. Programa comunitário ligado a hospital com fins lucrativos pode ser cap-subject. Nesse caso, o salário de residente joga você no Nível I, a faixa estimada de 15,29%. Por isso a pergunta certa na entrevista já começa pelo tipo de empregador.
Em que momento a loteria pega o médico?
Ela alcança você na troca de emprego depois do treino. Ao sair de um hospital capexempt para uma clínica privada cap-subject, você entra no sorteio. O que decide ali é o seu salário naquele momento. Como attending, sua disputa acontece no Nível III ou IV, com faixa estimada de 45,87% a 61,16%.
A escolha de especialidade e de cenário de prática, feita anos antes, decide em que nível você vai cair no sorteio. Uma subespecialidade bem paga em prática hospitalar cap-exempt fica quase imune à loteria. Uma clínica pequena cap-subject com salário no piso é a que mais expõe você ao risco.
"Melhor apostar tudo no J-1 e esquecer o H-1B"?
Esse é o conselho mais comum, e ele tem força real. O J-1 via ECFMG é o padrão do IMG. Quase todo programa patrocina, não há loteria, e o cronograma é previsível. Para quem só quer entrar na residência, é o caminho de menor atrito.
O problema aparece na saída. O J-1 obriga dois anos no Brasil depois do treino, salvo waiver. Para quem pretende ficar, o gargalo real é esse waiver, e a loteria fica em segundo plano. O Conrad 30 é a saída, mas depende de vaga estadual e de emprego em área carente. Trocar um H-1B que você provavelmente ganharia como Nível IV por uma briga de waiver nem sempre compensa. Vale mapear os dois desde o começo, e a gente já detalhou como o Conrad 30 dispensa a regra de dois anos do J-1.
A régua dos três degraus do visto
A decisão fica limpa quando você a organiza por degrau, e não por sigla de visto. Em cada degrau, a primeira pergunta é sobre o empregador, e o salário vem logo depois. Na residência, a pergunta é se o programa é cap-exempt. Se for, a loteria não toca você. Se for cap-subject, o salário de residente entra como Nível I, na faixa estimada de 15,29%. No fellowship o raciocínio se repete, porque a maioria também é capexempt e segue a mesma lógica do degrau anterior. No attending o emprego já pode ser cap-subject, mas aí o seu salário coloca você em Nível III ou IV, com faixa estimada de 45,87% a 61,16%.
A regra prática é a mesma do plantão: resolva na ordem certa. Tipo de empregador primeiro, nível salarial segundo, sigla do visto por último. Quem inverte essa ordem decide o visto no escuro. A escolha de especialidade, que parece só clínica, é também uma escolha de visto, e vale ler como o brasileiro escolhe especialidade como IMG com esse filtro em mente.
O que fazer no seu ciclo agora
Amanhã já dá para agir. Ao montar sua lista, pergunte a cada programa se o patrocínio é H-1B ou J-1, e se o hospital é cap-exempt. Anote isso ao lado da nota de corte da especialidade. Essas duas colunas decidem mais o seu futuro do que dez pontos no Step 2 CK.
É esse o filtro que a gente aplica com quem acompanha. Entre os mais de 75 médicos que passaram pela escola, a taxa de Match foi de 93%. Boa parte do trabalho é ordenar visto, empregador e especialidade antes da nota. A régua dos três degraus é o que separa quem escolhe programa com dado de quem escolhe no boca a boca.
Você já sabe se os seus programas-alvo patrocinam H-1B capexempt ou só J-1?
Mapeie seu caminho de visto com a gente. A gente cruza empregador, salário e especialidade antes de você travar a lista.
Fontes oficiais
- Federal Register 2025-23853, regra de seleção ponderada para petições H-1B cap-subject, publicada em 29/12/2025 e com vigência em 27/02/2026, com as probabilidades estimadas por nível salarial (Nível I 15,29% a Nível IV 61,16%). Acesso em 27/08/2026.
- Ogletree Deakins, USCIS conclui a loteria H-1B FY2027 e anuncia a seleção em 31/03/2026, primeiro ciclo sob a regra ponderada por salário. Acesso em 27/08/2026.
- Badmus & Associates, análise dos resultados FY2027, início das notificações em 27/03/2026 e queda dos registros para 211.600. Acesso em 21/08/2026.
- Immi-USA, leitura das probabilidades por nível salarial no FY2027 a partir das estimativas do DHS. Acesso em 21/08/2026.
- NRMP, resultados do Main Residency Match de 2026. Publicado em março de 2026.
- American Medical Association, taxas do Match 2026 por status de patrocínio (54,4% com visto vs 67,9% sem). Acesso em 27/08/2026.
- Boundless, diferença entre empregadores cap-subject e cap-exempt no H-1B. Acesso em 27/08/2026.
Este conteúdo é educacional e não substitui orientação jurídica de imigração nem consulta oficial ao USCIS, ao NRMP e à ECFMG.